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Deepak Chopra

Conheça um pouco mais sobre Deepak Chopra em entrevista concedida a Revista Marie Clarie

Marie Claire - Tudo parece dar certo na sua vida. Quando o senhor exercia a medicina, era um importante endocrinologista. Quando decidiu começar a escrever, seus livros viraram best-sellers e hoje o senhor é uma das figuras mais importantes do que poderíamos chamar de "novo paradigma" na medicina, que é o reconhecimento da conexão mente-corpo. O senhor acha que essa trajetória era seu destino ou nós fazemos o nosso próprio destino?

Deepak Chopra - Acho que são as duas coisas. O que acontece é que uma série de situações, circunstâncias e eventos criaram as oportunidades certas para mim, como podem criar para você. Por outro lado, também coloquei minhas próprias intenções para fazer com que as coisas acontecessem. A verdade é que você está fazendo uma pergunta que os filósofos se fazem há milhares de anos: nós somos produto de um destino pré-determinado ou temos livre-arbítrio? A resposta é: as duas coisas. Quem não tem consciência vive num mundo pré-determinado. Quem tem consciência torna-se alguém que pode escolher e exerce esse poder. Entre esses extremos, então, de quem está totalmente inconsciente e de quem já atingiu a iluminação, há uma mistura de destino e livre-arbítrio atuando nas nossas vidas.

MC - O senhor num determinado momento mudou a sua vida: deixou a prática diária da medicina e se tornou um escritor e palestrante que roda o mundo e tem uma legião de seguidores. Como se deu esse processo?

Chopra - Eu mudei minha vida muitas vezes. A cada dois anos tomo um novo rumo, diferente daquele que eu vinha trilhando. Acredito que a chave para esse processo de mudança é querer deixar o passado para trás e estar confortável diante do desconhecido, do incerto. Caso contrário, podemos fingir que somos livres, mas de fato não somos. Estaremos apenas respondendo às circunstâncias de forma reflexiva. Em geral o que acontece é que as pessoas escolhem uma direção na vida e pronto: é isso. Elas definem quem são e definir-se é limitar-se. Eu nunca tentei me definir: sou um médico, ou sou um escritor, ou sou um palestrante. Esse tipo de categorização não importa. Quando você não se define, pode ser qualquer coisa: você entra no campo das possibilidades infinitas.

MC - Seu trabalho poderia ser incluído na área da auto-ajuda, que vem crescendo muito e é um espaço fértil para charlatães. Como separar o joio do trigo?

Chopra - Não sei se eu diria que desenvolvo um trabalho de auto-ajuda. Talvez você possa chamar assim. Mas eu prefiro os termos auto-realização, transformação, potencial humano. Bem, é verdade que há muitos charlatães trabalhando nessa área, assim como em todas as áreas. A gente tende a imaginar que todo mundo é sério, por exemplo, na medicina. Mas há muitos médicos picaretas, cientistas picaretas. Pessoas desonestas existem em qualquer lugar, em qualquer profissão. Não devemos presumir que na área dos estudos da consciência há mais gente desonesta do que nos meios científicos, ou em administração, ou o que for. Cabe às pessoas fazer escolhas informadas. Se eu digo que um determinado tratamento com ervas medicinais é bom para você, você pode entrar na internet e fazer uma pesquisa sobre o que são aquelas ervas, que estudos existem a respeito de sua eficácia, quais as suas indicações. Assim você pode decidir por sua conta se estou dizendo a verdade ou não. Quando afirmo que a meditação funciona e que há centenas de estudos científicos que provam que sua prática regular traz uma série de benefícios para as pessoas, você pode checar o que eu digo, não precisa simplesmente acreditar em mim. Aliás, não precisa e nem deve simplesmente acreditar em qualquer coisa que seja dita. O consumidor informado, educado, consciente sabe que hoje é possível obter dados sobre absolutamente qualquer assunto. Se você se der ao trabalho de buscar informações, vai encontrá-las. Então quem tem interesse em meditação, técnicas avançadas dessa prática, espiritualidade, deve ir atrás de informações, checar essas informações e fazer escolhas informadas.

MC - Seu nome está cada vez num maior número de produtos. O senhor não tem medo que essa expansão dos seus negócios acabe por transformá-lo numa espécie de fast-food da espiritualidade? Como o senhor mantém controle sobre tudo o que está sendo produzido e que leva a sua marca?

Chopra - A maioria dos produtos que hoje levam o meu nome são livros, fitas de vídeo, cassetes e CDs. Há poucos produtos de ervas e algumas outras coisas. Nesse exato momento minha organização está passando por uma transformação. Estou abrindo mão de todos os demais produtos para me concentrar em escrever meus livros, fazer meus vídeos e gravar meus cassetes e CDs. O resto vou entregar nas mãos de instituições reconhecidas, para que tomem conta de tudo. Ao mesmo tempo, fundei uma organização não lucrativa para poder canalizar os lucros da venda desses produtos para pesquisas e educação. Há sempre uma percepção de que quando alguém se torna popular, e hoje eu sou popular, todo o trabalho daquela pessoa é puramente moda, é aquilo que você está chamando de fast-food. Só que no meu caso não é. Meu trabalho é autêntico e não posso fazer nada se cada vez mais pessoas percebem isso e gostam disso.

MC - Uma crítica comum ao seu trabalho é que o senhor pega a sabedoria milenar indiana e transforma em pílulas para o consumo rápido do Ocidente.

Chopra - Na verdade, o que faço é interpretar de forma contemporânea o antigo conhecimento indiano. Porque se você for até a fonte, ou seja, se resolver estudar as antigas escrituras indianas, vai descobrir que há muita superstição, muita bobagem, muita porcaria ali, infelizmente. Assim, é preciso ser seletivo. Só porque alguma coisa é antiga, não quer dizer que seja boa. Muita gente faz essa confusão: acha que tudo que é antigo é sábio. Essa postura presume que nossos ancestrais sabiam mais do que nós sabemos hoje, e isso é falso. Nós temos a vantagem de saber o que eles sabiam e muito mais, graças ao que pudemos aprender através da ciência e da tecnologia. O que faço é, primeiramente, ser seletivo em relação à antiga sabedoria. Eu não tenho uma fé cega na milenar sabedoria indiana. Também não tenho uma fé cega num glorioso passado indiano, nem nas escrituras védicas, nem na espiritualidade do povo indiano. Muito disso tudo é exagerado, especialmente pelos próprios indianos – que são, aliás, um dos povos mais superficiais do mundo. Os indianos posam de grandes espiritualistas quando são materialistas ferrenhos, preocupados sobretudo em copiar o Ocidente.

MC - Então por que essa fama de que eles são tão espiritualizados?

Chopra - Nós tendemos a avaliar uma civilização ou uma cultura por seus luminares. Se pensamos na Grécia Antiga, por exemplo, o que nos vem à mente é Pitágoras, Sócrates, Aristóteles, Platão… Pensamos: ‘Uau! Que grande civilização!’ Mas, na verdade, os gregos naquela época eram na sua maioria bárbaros: sexistas, escravagistas, jogavam as pessoas com defeitos físicos aos leões. Essa era a Grécia. O mesmo é verdade da antiga civilização indiana. Há alguns poucos luminares, como o poeta Rabindranath Tagore ou Mahatma Gandhi. Você olha para os grandes homens e diz: puxa, a India era uma maravilha. Mas nem tudo na India era uma maravilha. Não vamos fingir que tudo que existia na India poderia ser aprovado sem reservas. É preciso ser seletivo. Antigo e eterno são conceitos diferentes. Algumas coisas antigas podem servir ou não para os dias de hoje. Já o que é eterno é válido sempre, a qualquer tempo. Meu trabalho é selecionar o que é eterno e explicar de forma lógica. Se eu não puder explicar de forma científica, lógica, eu não incorporo ao meu trabalho.

MC - A saúde perfeita é possível?

Chopra - Eu acredito que a saúde perfeita é o estado natural de todos os seres humanos.

MC - Mas do que a gente morreria se nunca adoecesse?

Chopra - A gente morreria, provavelmente, de tédio. (rindo)

MC - Mas e se a gente estivesse se divertindo?

Chopra – Aí, provavelmente, viveríamos por muito, muito tempo. Esta é uma questão absolutamente fascinante. Se olharmos para um grupo de pessoas idosas, digamos com mais de 100 anos, algumas delas terão artrite, mas nem todas; algumas terão doenças coronárias; mas nem todas; outras terão câncer, mas nem todas. O que você coloca, portanto, é que quando as pessoas envelhecem elas têm mais chances de apresentar doenças. Mas o fato de que algumas pessoas idosas adoecem e outras não significa que, apesar de certas doenças serem mais comuns entre os idosos, elas não são obrigatórias. Este é um insight interessante, que outras pessoas já notaram: envelhecer não significa que você tem que, necessariamente, adoecer. Mas aí vem o problema: do que nós morreríamos? Bem, com os conhecimentos científicos disponíveis hoje, acredita-se que o ser humano tem um relógio biológico com um limite que estaria, atualmente, por volta de 120, 121 anos. A teoria é que, basicamente, quando o relógio atinge essa idade a pessoa morre. Se isso é verdade ou não, ainda precisa ser verificado. Pessoalmente, acredito que viver para sempre acabaria por nos condenar ao tédio e à senilidade eternos. Quando nós percebemos de verdade quem somos, queremos sempre ter uma experiência nova de vida. Se eu compro um Jaguar hoje, posso achar que é um belo carro, mas daqui a alguns anos vou querer uma Ferrari, e depois vai ser qualquer outra coisa. O ser humano é assim: se cansa das coisas.

MC - Por falar nisso, é verdade que o senhor coleciona carros de luxo?

Chopra - Não. Fiz isso há vinte anos. Eu tinha uma coleção de Jaguares, que fui dando ao longo do tempo. Hoje em dia não dirijo, caminho. Não tenho sequer a carteira de motorista. Onde eu vivo, em La Jolla, na Califórnia, não é preciso dirigir para se locomer. A maior parte do tempo eu ando. E quando estou viajando, alguém dirige para mim, ou tomo um ônibus, ou um trem. Não estou mais preocupado com esse tipo de coisa.

MC - Voltando à questão da saúde. Quando o senhor fica doente, a que tipo de tratamento recorre?

Chopra - Eu nunca fiquei doente.

MC - Como assim? Desde quando?

Chopra - Desde que eu me lembre.

MC - O senhor está brincando. Nem um resfriado?

Chopra - Nem um resfriado, não que eu me lembre. Ninguém na minha família fica doente. Esse é um conceito estranho para nós. Meus filhos nunca tiveram nenhum problema de saúde. Acho que é porque somos uma família saudável. Meu pai está com 80 anos e ainda trabalha diariamente, atendendo seus pacientes. Ele é cardiologista e trabalha 12 horas por dia, não pára nunca. Quer dizer, hoje, claro, ele também acha tempo para meditar e medita todos os dias, graças a mim. Mas somos uma família de fato interessante, ninguém adoece. Meu avô, aliás, morreu de contentamento. Ele tinha um grande orgulho das conquistas do meu pai, que tinha se formado cardiologista. Um dia ele recebeu um telegrama avisando que meu pai tinha se tornado membro do Royal College of Physicians, na Inglaterra. Ele ficou tão feliz que acabou morrendo. Foi mesmo uma morte por alegria.

MC - O senhor às vezes fica estressado? Tem alguma coisa que o deixa estressado?

Chopra - Não, eu não fico estressado. Às vezes eu fico bravo, e claro que você poderia dar a esse sentimento outros nomes, se quisesse. Mas o fato é que quando me aborreço demonstro minha raiva por cinco minutos e pronto, acabou. E é muito difícil que eu fique realmente chateado. As coisas simplesmente não me incomodam.

MC - E antigamente, o que tinha a capacidade de estressá-lo?

Chopra - Receber críticas. Mas não mais. Aliás, outra coisa: o tráfego de São Paulo. Mas agora nem esse trânsito que vocês têm aqui me incomoda mais. De verdade.

MC - E qualquer pessoa pode chegar a essa tranquilidade e enfrentar o trânsito de São Paulo sem estresse?

Chopra - Sim, qualquer pessoa. O que acontece é que depois de algum tempo a gente percebe que está fazendo tempestade em copo d’água. Tudo é levado tão a sério, tudo vira um drama, uma novela. A vida não precisa ser assim. Depende de como você encara.

MC - Quais suas melhores qualidades?

Chopra - Eu sou divertido. Meus dois filhos podem confirmar isso. Nós nos divertimos muito juntos. Também acho que escrevo bem e sou um bom orador, um comunicador competente.

MC - O que o senhor costuma fazer com seus filhos para se divertir?

Chopra - Nós escalamos montanhas, mergulhamos, pulamos de pára-quedas... Adoramos esportes e praticamos em qualquer lugar do mundo. Podemos fazer mergulho no Caribe, esquiar na Europa, escalar uma montanha na Califórnia. O importante é que gostamos muito de atividades ao ar livre e sempre que estamos juntos fazemos alguma coisa assim.

MC - E isso acontece com frequência? Parece que o senhor passa a maior parte do tempo viajando.

Chopra - Eu diria que passo metade do meu tempo viajando. E minha intenção é parar com as viagens em dois anos. Mas isso ainda está no futuro, vamos ver o que acontece. Mesmo viajando bastante, porém, tenho tempo para minha família. Muitas vezes eles viajam comigo, se estou indo a algum lugar interessante. Se vou a Detroit, eles não vão junto. Mas se vou ao Havaí, aí vai a família toda.

MC - O senhor pode falar um pouco sobre sua família? O que fazem os seus filhos?

Chopra - Meu filho, Gautama ou Gotham, tem 24 anos, é escritor de ficção e também assina quadrinhos. Ele acaba de terminar uma série de quadrinhos de grande sucesso, "Bullet Proof Monk" (Monge à Prova de Balas), que mistura artes marciais e espiritualidade e será transformada em filme. Ele também apresenta um programa de TV especial, sobre espiritualidade, que é assistido diariamente por 10 milhões de crianças. Ele é um cara muito popular. Quando terminou a faculdade, no ano passado, se mudou para Los Angeles e agora está preparando dois romances. Minha filha, Mallika, tem 26 anos e está fazendo mestrado em Chicago. Ela estuda entretenimento e espiritualidade e pretende pegar meu trabalho e transformá-lo em algo mais acessível para um público mais jovem. Meus dois filhos meditam desde os 4 anos de idade.

MC - Mas no seu livro "As Sete Leis Espirituais para os Pais" o senhor não recomenda que as crianças só sejam introduzidas na prática da meditação a partir dos 6 ou 7 anos?

Chopra - Mas eu quebrei as regras. (rindo)

C - Nas suas palestras e nos seus livros o senhor cita muita poesia. Ler poesia é um hobby seu? E o senhor também escreve poemas?

Chopra - Eu escrevo poesia e já publiquei dois livros: um de poemas meus e outro com traduções originais de Rumi [poeta místico do Islã do século XIII]. Também coloquei música nos poemas dele e convidei algumas grandes vozes para declamá-los num CD: gente como Madonna, Demi Moore e outros grandes artistas e filósofos. Esse CD está fazendo um enorme sucesso, aliás. Estou preparando uma nova tradução, desta vez sobre os sentidos da morte na poesia de Rabindranath Tagore [poeta e filósofo indiano, ganhador do prêmio Nobel de Literatura de 1913]. Além de poemas, escrevo romances. Já escrevi três histórias, sendo que uma delas, "The Lords of the Night" (Os Senhores da Noite), acabou de sair nos Estados Unidos, foi publicada na semana passada. É um romance baseado na Cabala, o tema é a religião. Conta a história de um falso profeta que aparece em Jerusalém mas que, na verdade, é o diabo. Então ele tem que ser mandado de volta para o inferno. Esse livro vai virar filme.


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