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A
Legítima Disciplina A disciplina é
importante em todos os setores da vida, mas não é necessariamente
um comportamento rígido e inflexível. O que é então
a verdadeira disciplina? Não deixe de ler este texto inédito. Num desses períodos de férias, fui à Índia. Sim, porque não é só o presidente da república e os praticantes de yoga que podem ir conhecer o Taj Mahal; eu também posso. Passeando de riquixá pelas ruas antigas de Nova Delhi, meu guia levou-me a um pagode (nada a ver com samba: pagode é uma espécie de templo) onde havia alguns faquires. Um deles vivia todo o tempo de cabeça para baixo, com as mãos no chão e os pés para o alto, outro exibia uma barba de 5 metros de comprimento, porém o que mais me impressionou foi um que ficava confortavelmente sentado sobre uma cadeira de pregos. Os pregos pontudos lhe feriam o corpo mas pareciam ser, pela expressão do faquir, uma almofada de cetim. Fiquei ali um bom tempo observando as pessoas que não paravam de chegar para consultá-lo. Ele era uma espécie de oráculo, admirado e respeitado. Pedi ao meu guia para ajudar como tradutor em uma conversa com ele. O guia me apresentou e o faquir ficou esperando que eu perguntasse alguma coisa. – O que é preciso para que nossa vida realmente valha a pena? – perguntei. – Depende – disse-me ele, indagando em seguida: – Como você vive? – Procuro ser um homem de bem, bom chefe de família, bom profissional, ajudo aos necessitados como posso, transmito mensagens positivas em meu dia-a-dia... – Você não senta de vez em quando numa cadeira de pregos como esta? – Ah, isso não – respondi. – Então, sinto muito, mas desse jeito você só irá para o décimo-nono céu, no máximo. – Tudo bem, não tem problema – argumentei. – Para mim não faz diferença se vou ao décimo-nono ou ao vigésimo céu. E qual é seu objetivo, com todos esses pregos espetados no corpo? – Vou para o trigésimo-quinto céu – disse ele. Meu guia, então, não se conteve e começou a argumentar com ele, sem traduzir-me o que falavam. Depois de um bom tempo de conversa, para minha surpresa o faquir levantou-se e, andando com dificuldade, saiu junto conosco. Intrigado, perguntei ao guia o que tinha acontecido. – Disse a ele que esse negócio de querer ir para o trigésimo-quinto céu talvez não passe de uma ambição, de certa forma egoística, pois mais vale ter uma vida honrada como a nossa, trabalhando com afinco, cuidando de sua família e ajudando ao próximo, do que ficar mortificando o corpo com pregos. Então ele acabou concordando em ficar uns tempos em minha casa para viver uma vida normal. Nos dias seguintes, saí numa excursão por vários pontos daquele enorme e exótico país. Duas semanas depois, procurei o guia para saber das novidades. – Ah, o faquir? Trouxe-o para casa, fiz com que ele tomasse um banho caprichado, minha mulher lhe serviu bons alimentos, dei-lhe roupas novas e meus amigos lhe ofereceram trabalho. Ele viveu dez dias conosco, confessando que estava se sentindo muito mais feliz do que antes. Mas... sentiu falta do povo que vinha admirá-lo e consultá-lo. E decidiu voltar aos pregos. *** Quando penso sobre disciplina, costumo lembrar-me dessa história, que na verdade é fictícia. Trata-se de um antigo conto intitulado “Carta de um turco”, escrito por Voltaire, aquele famoso escritor e filósofo da Revolução Francesa, que decidi recontar do meu jeito. É uma metáfora muito interessante sobre os exageros que algumas pessoas cometem com relação à disciplina. Não há dúvida de que a disciplina é importante em todos os setores da nossa vida – o trabalho, a saúde, a educação, a vida em família, o convívio social, o bem-estar, a política, o esporte e tudo o mais. Sem disciplina em nosso dia-a-dia, não temos como estar preparados para os embates da vida. “Se o caminhante tem as pernas frágeis para tão longo e duro caminho, deve fortalecê-las antes de começar a andar”, diz o Prof. Hermógenes, um mestre do Yoga no Brasil. O personagem do conto que acabo de narrar buscava exercer a disciplina flagelando o próprio corpo. No outro extremo existem as pessoas que se entregam à gula, à bebida e aos prazeres sensuais, ou aqueles que se deixam enferrujar na vida sedentária e só pensam em trabalho, gastando energia sem praticar exercícios, sem momentos de lazer e de reflexão, sem cuidar da própria saúde. Entre esses dois extremos, o Prof. Hermógenes recomenda o caminho do meio, observando que, seja qual for a religião, é obrigação de todos cuidar bem do próprio corpo, por meio da disciplina que nos fortalece e nos “defende de todos os cansaços, desânimos, preguiças, fossos e fossas”. Equilíbrio. Este é um ingrediente importante para a disciplina, que não deve cair no exagero ou na rigidez. Basta passarmos numa academia de ginástica para ver isso. Tem gente que fica malhando horas e horas, impondo-se uma disciplina exagerada e um ritmo pesado de exercícios físicos para fazer crescer os músculos, o que a longo prazo pode prejudicar a saúde, apenas por narcisismo. Aliás, nem precisamos ir à academia para vermos esse tipo de atitude. Nos ambientes de trabalho ainda são muito comuns os exageros em matéria de disciplina. Sabe aquele chefe extremamente rigoroso e centralizador, que não permite que ninguém diga ou faça nada diferente do que ele considera certo? É o famoso matador de idéias, um destruidor da criatividade. Não precisa ser chefe para ser um maníaco da disciplina. Conheci há tempos um burocrata, escriturário, que era fanático por carimbos. Tornou-se tão exímio e rigoroso no arquivamento dos papéis e principalmente no manejo dos carimbos em sua repartição, que impôs um clima de terror a quem carimbasse errado, sem a carga exata de tinta, ou com pouca pressão em um dos lados, ou torto em relação ao papel. Carimbar de ponta-cabeça ou usar o carimbo errado, para ele, deviam ser crimes passíveis de demissão sumária por justa causa, ou até mesmo prisão perpétua. Em sua cruzada pela carimbagem perfeita, chegou a fazer um minucioso manual do carimbador, que instituiu como lei suprema quando foi nomeado chefe da seção. Reinava absoluto sobre seu arsenal de carimbos e formulários, quando chegou o computador e uma reforma administrativa mudou todos os procedimentos. Alguns meses depois foi visto perambulando, errante, por entre os corredores do arquivo morto, carregando um saco de lixo, repleto de carimbos obsoletos. A história do “homem que carimbava” é um bom exemplo dos profissionais que confundem os meios e os fins. Preocupam-se tanto com o rigor dos procedimentos que os verdadeiros objetivos do seu trabalho ficam em segundo plano. Há pessoas
que vêem na natureza uma demonstração de rígida
disciplina, pois o sol nasce regularmente todos os dias, a lua tem suas
fases programadas há milênios, os rios sempre correm na
direção do mar, tudo parece completamente equilibrado
e estável. Mas não é bem assim. O equilíbrio
da Criação é algo bem mais complexo e muitas vezes
foge ao nosso entendimento. A vida é um permanente estado de
mudança e a sobrevivência dos seres vivos depende da capacidade
de acompanhar esse movimento. Veio a revolução
industrial, várias regiões foram ocupadas por máquinas,
que eram inicialmente muito poluidoras e despejavam no ar grande quantidade
de fuligem e outros elementos tóxicos. As árvores desses
lugares, com o tempo, tornaram-se escuras. E assim as mariposas passaram
a correr perigo, pois suas asas claras denunciavam sua presença,
aos olhos dos animais que gostavam de devorá-las. Acho fantástico esse exemplo, pois o mimetismo das mariposas nos ensina que a disciplina da natureza não é uma atitude rígida, mas sim a capacidade de mudança, de adaptação à realidade em contínua transformação. É conseguir perceber a cada momento o que está acontecendo, sabendo sempre o momento e a melhor maneira de mudar sua rota. Isso vale para empresas, para governos e para nossa vida pessoal. |